







Não me reconheci e, curiosamente, foi aí que comecei a me ver de verdade.
Havia em mim uma estranheza que não gritava, mas pedia silêncio.
Como se meu corpo soubesse, antes da mente, que algo estava mudando.
Não sou mais quem eu era ontem.
Mas sigo feito de tudo que fui.
Levo comigo os pedaços que resistiram,
os que desisti de colar e até os que insisto em esconder.
Há um desconforto na mudança,
um tipo de dor que não é física, mas mora na alma e tem o tamanho do que não sei nomear.
A liberdade me atrai.
Mas ser livre exige se despir até do que parecia abrigo. É preciso coragem pra desmontar o que já nos protegeu um dia.
E eu ando fazendo isso devagar, tropeçando, mas indo.
O mundo lá fora exige certezas.
Mas aqui dentro, o que cresce é o vácuo.
E talvez o vazio não seja ausência.
Talvez seja só o início do que ainda vai nascer.
Busco abrigo no escuro da noite.
Olho a lua como quem procura respostas num rosto que não responde.
E mesmo assim, continuo.
Porque alguma coisa em mim, mesmo exausta, ainda tem vontade de permanecer.
De vez em quando, o tudo vira nada.
E o nada, quando aceito, se transforma em começo.
Texto e fotografias: (bruno saavedra 2025)

